Lula Côrtes, com o seu tricórdio, instrumento que marcou o ‘Satwa’
Quando músico e cartunista Lailson de Holanda Cavalcanti, então com 19 anos, conheceu o também multiartista Lula Côrtes, de 23 anos, na Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém, no final de 1972, a identificação musical entre os dois foi imediata. Além da amizade, o resultado do encontro seria concretizado alguns meses depois com o lançamento do disco Satwa, em fevereiro de 1973. Composto, gravado e prensado no Recife, de forma independente, Satwa tornou-se, há exatos 40 anos, o precursor de um movimento musical gerado na cidade, que acabou resultando em alguns dos discos mais importantes da música brasileira dos anos 1970, com trabalhos de nomes como Zé Ramalho, Marconi Notaro, Flaviola e da banda Ave Sangria.
Os álbuns, gravados entre 1972 e 1974, tornaram-se, ao longo dos anos, itens de colecionador, raridades para uns poucos conhecedores da cena local. Recentemente, porém, alguns deles voltaram às prateleiras das lojas, nos formatos de CD e vinil, com capas originais, através de um selo inglês chamado Mr. Bongo, que comprou o catálogo da antiga gravadora pernambucana Rozenblit, na qual foram feitas as gravações. Com o tempo, a música do período, rotulada hoje no exterior como “folk psicodélico brasileiro”, passou a atrair a atenção de um público alternativo, interessado em curiosidades musicais, nos Estados Unidos e na Europa, fenômeno que vem incluindo, nos últimos 15 anos, bandas como Os Mutantes e até gente da bossa nova como Marcos Valle e Joyce.
Nos anos 1970, foi Satwa que desencadeou o processo. Na época, Lula Côrtes havia voltado de uma viagem ao Marrocos, onde comprara um instrumento exótico de três cordas, do qual não sabia nem o nome. Ele e Lailson passaram a chamá-lo de tricórdio ou cítara marroquina. Começaram a improvisar juntos, na casa de Lula, no Bairro do Monteiro. Lailson descobriu por lá um violão folk de 12 cordas, e passou a usá-lo para acompanhar Lula no tricórdio. Foram surgindo as primeiras composições influenciadas pelo rock da época, pelas raízes nordestinas e por elementos da contracultura que iam do psicodelismo ao misticismo oriental. A palavra satwa, por exemplo, em sânscrito, significa o terceiro aspecto da realidade, em que o divino se encontra com a matéria, de forma harmônica.
Os títulos das músicas dizem muito sobre o clima do disco. Blues do cachorro muito louco, Allegro piradíssimo e Valsa dos cogumelos são algumas delas. Originalmente, algumas canções tinham letras, mas, para evitar problemas com a censura, decidiram gravar somente a parte instrumental. “O disco em si é uma porra-louquice muito grande. Ele só ficou compreensível muitos anos depois, quando aconteceram coisas como a world music”, diz hoje Lailson.
Gravado em duas semanas nos estúdios da Rozenblit, no Bairro de Afogados, Satwa foi feito de forma independente e tem um clima viajandão, de improviso sem limites. “Cada vez que a gente tocava era uma variante, a mesma canção, mas não do mesmo jeito, porque a proposta era muito essa coisa fluida do zen”, lembra o cartunista.
Costuma-se afirmar que o trabalho de Lailson e Lula teria sido o primeiro disco independente gravado no Brasil. A primazia é contestada por alguns e difícil de ser estabelecida com segurança, mas isso pouco importa. O fato é que ele se insere perfeitamente dentro da cultura alternativa dos anos 1970 como um típico produto da época. É aquele tipo de trabalho musical feito num estúdio por alguns músicos cabeludos cheios de idealismo, que pegaram as mil cópias do LP pronto, colocaram debaixo do braço e saíram vendendo a amigos em casas, bares e em algumas poucas lojas. Tudo fora do esquema das grandes gravadoras que dominavam o mercado.
Logo depois de Satwa, foram gravados no Recife, já com a chancela da Rozenblit, o disco de Marconi Notaro, que se chamou No sub-reino dos metazoários e o de Flaviola, intitulado Flaviola e o Bando do Sol. Lula Côrtes esteve envolvido em quase todos os trabalhos da turma, produzindo e tocando o seu tricórdio. Ele costumava especular que a semelhança entre o som do instrumento e a viola nordestina se devia à influência dos mouros na Península Ibérica e depois no Nordeste brasileiro. O guitarrista Ivson Wanderdey, o Ivinho do Ave Sangria – e que viria a gravar um disco solo ao vivo no Festival de Montreux, na Suíça, em 1978 – também fez suas participações nos discos dos amigos. Juntos, eles formam a chamada geração do Beco do Barato, espaço de shows alternativos que funcionava na Avenida Conde da Boa Vista e reunia a moçada hippie.

Lailson de Holanda, parceiro de Lula Côrtes em Satwa. Foto: Arquivo pessoal Lailson
Mas foi com Paêbirú – caminho da montanha do sol, lançado em 1975 numa parceria de Lula Côrtes com o paraibano Zé Ramalho, que o movimento atingiu seu momento mais marcante. Inspirado nas lendas indígenas da Pedra do Ingá, na Paraíba, o disco conceitual de Lula e Ramalho é típico da música underground da primeira metade dos anos 1970. Suas canções trazem letras que exploram o misticismo pagão da pré-história brasileira, acompanhadas por instrumentos como flautas, percussão, cordas e efeitos sonoros, criando um clima experimental. Além de Ramalho e Lula, o disco reúne dezenas de nomes promissores da música da Paraíba e de Pernambuco na época.
Os quatro lados do LP duplo levam os nomes dos elementos básicos da natureza: terra, ar, fogo e água. As imagens sonoras são fortemente influenciadas pela contemplação das inscrições misteriosas na pedra e pelo consumo de maconha e cogumelos. Do ponto de vista conceitual, o universo explorado em Paêbirú se assemelha à tendência do rock internacional, na época, de pesquisar fusões com músicas regionais e explorar, na temática, correntes místicas alternativas. Portanto, nada de muito novo, mesmo naquele tempo.
Talvez seja a história atribulada do disco um dos fatores que possam explicar o prestígio que ele tem hoje em dia. Das 1.300 cópias feitas, cerca de mil se perderam na própria gravadora, duramente atingida pela grande enchente de 1975. Com as águas, foi encerrado precocemente o ciclo pop na Rozenblit, apesar de continuarem existindo bandas na cidade. As cópias que sobraram ajudaram a criar a aura em torno do disco. Ele entrou para a história até mesmo por ter sido renegado, posteriormente, por Zé Ramalho, que se recusa a falar sobre o trabalho. Lula Côrtes partiu para outros projetos, na música e nas artes plásticas e Paêbirú ficou esquecido, até que virou item de colecionador, chegando a ser o disco brasileiro mais caro no mercado de raridades.
Com os lançamentos da Rozenblit, o meio musical começou a perceber que algo interessante estava acontecendo no Recife. Foi quando a banda Ave Sangria conseguiu um contrato com a gravadora Continental. Os rapazes da Vila dos Comerciários, na zona norte do Recife, foram gravar no Rio de Janeiro e hoje são reverenciados por muitos pelo disco homônimo, conhecido por músicas como Seu Waldir e Lá fora. Sem nunca ter sido lançado oficialmente em CD, (apenas houve um relançamento em LP no fim dos anos 1980), o disco também virou cult. O jornalista Marco Polo Guimarães, então cantor e líder da banda, diz que se espantou ao ver a moçada cantando as músicas do Ave, num show recente que fez em São Paulo. “Foi de arrepiar”, conta.
Fonte (com informações e fotos adicionais): Revista Continente
Texto de MARCELO ABREU, jornalista, professor e autor de livros-reportagem e de viagem.